Arquivo para janeiro de 2010

Ando desplugado

Andei desplugado nestes dias. Apertado com relatório de gestão da empresa em que trabalho, com atividades que estão consumindo mais tempo que gostaria e ainda estou me candidatando à pós graduação (sim, este ano volto a estudar). E eu este ano quero me dedicar mais a minha formação acadêmica. Pessoal e profissional, tenho que crescer (yoda dialogue mode on).

Eu gostaria de deixar claro, que a troca de gestor da secretaria municipal de saúde  (JM) não vai ser a pauta dos meus comentários. Cargos públicos vão e vem. Projetos… bem, estes teoricamente deveriam ser concluídos.

Quanto ao HM, bem, não vou comentar nada até fevereiro.

E vamos tentar subir a montanha!

Saúde conectada ou desplugada

Sim, existe um grande debate sobre os blogs e a saúde. Meu blog envolve saúde. Mas fico mais na parte de gestão. Sobre a conduta médica, discutir propedeutica ou divulgar “novos tratamentos”, não posso fazer porque simplesmente não sou médico ou profissional de saúde (embora conheça meandros de equipamentos de diagnóstico por imagem). Então, meu blog, que está crescendo em acessos (estou passando dos 100 acessos), não trata sobre os meandros que já citei.

Confesso que já pesquisei sobre diversas doenças na Internet, e seus tratamentos. Mas não vou nas fontes tradicionais como simplesmente ir no Google e digitar. Prefiro ir direto nas fontes das sociedades da especialidade ou diretamente nas diversas bibliotecas médicas disponíveis. Mas eu adoto este critério, porque sei que muitas pessoas trocam informações sem o crivo da responsabilidade.

Por exemplo, Urinoterapia. Algo totalmente desprovido de critério e embasamento. Mas algumas pessoas acreditam, porque algum “guru” da medicina falou que era interessante, e que ajudava a curar diversas doenças. Ora. Se é algo excretado pelo corpo humano, como pode ser bom? O organismo humano não descarta nada se não tiver necessidade ou sentido. E dizer que este tipo de tratamento cura câncer e AIDS é de uma total falta de bom senso.

Aí que mora o problema do filtro das informações. Todos os dias, alguém busca um melhor entendimento sobre os resultados de exames clínicos. Por exemplo, se o nível de colesterol for alto, ele já irá pesquisar sobre os efeitos do colesterol alto no organismo, e não conseguirá interpretar os demais resultados. Apenas alguns sintomas não justificam uma pesquisa na Internet. Afinal, não existe um sintoma isolado. Por exemplo, febre e tremor não podem indicar apenas uma gripe.

A Internet populariza muita coisa. Lixo também. Infelizmente, o desespero da busca pela informação nesta sociedade conectada em que vivemos não impede absurdos. E os consultórios médicos estão refletindo isto, com o número cada vez maior de pessoas questionando o médico sobre os resultados dos seus exames.

Nisto, talvez seja um aspecto positivo. Afinal, existirá o diálogo entre o paciente e o médico. Mas o médico deve saber orientar também a consulta do paciente, e orientar adequadamente o uso da internet para a pesquisa sobre os exames e resultados.

Não adianta plugar itens de saúde e desplugar o médico. Ele é fundamental no processo, mas não pode se fechar ao uso da tecnologia. Ele deve estar aberto a este tipo de questionamento e apto a esclarecer adequadamente sobre os sites que podem ajudar e agregar informação ao paciente.

Pilares políticos x pilares técnicos

Administradores são importantes. Reconheço que o espírito empreendedor do Lucien é grande, e ele é uma pessoa capaz de realizar grandes feitos. Empreendedores geralmente usam a criatividade para inovar em algum produto ou serviço. Confesso que a empresa da qual ele é proprietário atingiu um grau de destaque muito grande.

O político Lucien eu não conheço. Não entro no meandro político. Conseguir verbas do governo para expansão dos serviços não é merito apenas dele, mas de muitos outros administradores hospitalares espalhados pelo país. Não equeçam que o Hospital São José, de Nova Era, sobrevive ainda sem os recursos de intervenções federais ou estaduais. e tem uma estrutura física de dar inveja. Pena que não tenha um “administrador” ou “político” para servir de tripé.

Sobrevivência, sucateamento, solvência, dívidas não são palavras únicas para descrever a situação do hospital Margarida. Se você pesquisar no site da Federasantas, e outras entidades que cuidam da gestão hospitalar de entidades filantrópicas, pelo menos 12 hospitais são fechados todos os anos, pela impossibilidade de sustentar suas contas. É o caminho que uma tabela defasada do SUS impõe a estes hospitais, que não tem tripés para sustentar suas estruturas financeiras.

Os hospitais, assim como a maioria das empresas, esquece que não adianta nada você ter recursos financeiros, se não tiver uma boa gestão. Hospitais privados de médio e grande porte dão exemplos claros disto. Veja, por exemplo, o Einsten em SP e o B. Portuguesa. São filantrópicos. Mas sobrevivem porque tem extremo zelo suas equipes profissionais, e atraem convênios para trabalhar com eles. O Einsten é para mim referência nacional em TI de saúde levada até a beira do leito. Os indicadores públicos dele estão aí para mostrar que é possível fazer muito, sabendo reter talentos e valorizando o corpo clínico.

Não adianta falar em tripé político, se a sustentação deste tripé for fraca. Ninguém quer ficar hospitalizado numa instituição que tem índices de infecção hospitalar altos, ou mesmo com médicos desconhecidos. Você quer ficar internado onde o corpo de enfermeiras te atende bem, onde se tem um atendimento de qualidade na recepção, onde é possível ter informações sobre os procedimentos executados de maneira clara. Não se fica no hospital porque o diretor é amigo de cicrano que consegue verba. Se fica num hospital porque o corpo clínico e técnico é de qualidade.

O blogueiro tem suas opiniões, e eu tenho as minhas. Considero o debate de idéias fundamental. Mas não se pode supervalorizar um tripé que pode ruir de acordo com o sabor dos ventos ou das marés. Pessoas passam. Ações ficam.

A montanha da saúde envolve preparação e boa equipe para escalar. Não adianta mandar um diretor administrativo enfaixar um pé, que ele não vai conseguir enfaixar. Pense nisto.

Excelente artigo

Transcrevo aqui o excelente artigo que saiu na Saúde Bussines web.

Esta questão é uma das que mais deveria sensibilizar o governo:

O SUS e o câncer
 
por Roberto Porto Fonseca* 
19/01/2010
 
Presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Roberto Fonseca comenta a preocupação com a deteriorização das condições de atendimento
 

Os cancerologistas brasileiros estão cada vez mais preocupados com a deterioração progressiva das condições do atendimento ao paciente oncológico no Sistema Único de Saúde (SUS). E não é para menos: até o final deste ano, estima-se que no Brasil ocorrerão cerca de 466 mil novos casos de câncer, com uma mortalidade de cerca de 160 mil pacientes. 

O tratamento de câncer no Brasil, no que se refere ao SUS, deixa enormes lacunas nas opções à disposição dos cancerologistas, impossibilitados de utilizar tecnologias e drogas já incorporadas à prática médica há muito tempo. 

Cerca de 80% dos casos de câncer no Brasil são tratados no âmbito do SUS, tornando imprescindível a adoção de novos medicamentos e tecnologias, bem como a atualização da tabela de procedimentos oncológicos, nas quais ocorreram apenas alterações pontuais nos últimos 11 anos, com a transferência de parte dos custos para os prestadores de serviço. 

Exemplo do equívoco de tais políticas foi a forma como se incorporou a droga imatinibe à tabela de procedimentos da oncologia no SUS em 2001. Na época, o governo promoveu a isenção de impostos para o medicamento para que o preço ficasse compatível com o valor pago pela Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alto Custo (Apac). Ainda assim, o procedimento era deficitário para os prestadores de serviço, pois o valor pago cobria apenas o preço do medicamento, o que era insuficiente para arcar com seus custos operacionais. 

O número de pacientes que usam imatinibe vem se avolumando, o que o torna extremamente oneroso para o sistema, a tal ponto que, em 2007, o gasto do ministério com essa medicação totalizou R$ 203 milhões, ou seja, 19,8% de todo o gasto do SUS com quimioterapia, embora o número desses pacientes representasse menos de 2% do número total em tratamento oncológico. 

É necessária, ainda, a revisão do orçamento ministerial destinado aos procedimentos da oncologia clínica, assim como a melhoria no acesso e na cobertura do atendimento cirúrgico oncológico e de radioterapia. 

Desde 2004, soluções técnicas bem embasadas vêm sendo discutidas pelas sociedades de especialidades, em conjunto com o órgão normatizador da política de atenção oncológica do Ministério da Saúde, o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Essas propostas já foram aprovadas no Conselho Consultivo do Inca, mas não houve sua implantação efetiva pelo ministério, ocorrendo um atraso de mais de 10 anos na inclusão de procedimentos sabidamente curativos, que teriam salvado a vida de milhares de pacientes, a despeito de sucessivos alertas feitos às autoridades de saúde. 

Os cancerologistas defendem a justiça e a equanimidade no tratamento clínico do câncer e pedem ao Ministério da Saúde que examine, com prioridade, a inclusão de novas tecnologias e de novos medicamentos oncológicos, tendo como objetivo final o respeito ao paciente de oncologia atendido pelo SUS. 

*Roberto Porto Fonseca, diretor da Oncomed e presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia 

Sem mais comentários. Tabelas são tabelas. Despesas não podem ficar apenas por conta do prestador. E quem está com esta patologia, sabe da importância de qualquer chance de tratar e curar é muito melhor quando todos os recursos estão disponíveis.

Buscar qualificação não é a regra ainda

Eu estou buscando me qualificar. Muitas pessoas, em seus respectivos mercados, estão na luta por uma qualificação melhor. Mas enquanto alguns lutam por melhores condições através do conhecimento, outros estão ainda no esquema filantrópico e assistencialista do mercado.

Exemplo claro disto é a constante e acirrada disputa das “bolsa-familia”. O maior exemplo de péssimo assistêncialismo que um governo pode promover. Quer coisa mais nojenta que as pessoas buscarem simplesmente a “receita” e botar os filhos na escola, sem ter a preocupação em gerar renda para sair desta condição?

Embora eu não tenha a habilidade de um assistente social, acredito que o programa já deveria ter mudado seu foco a muito tempo. Tente, por exemplo, encontrar um pedreiro realmente qualificado em nossa região. Um encanador ou eletricista.  Verá que não existem estes profissionais em quantidade suficiente para atender à demanda. Não falo de experiência em carteira, mas em formação técnica mesmo, banco de sala.

A prática é importante, mas sem a fundamentação teórica, tudo cai por terra.

A montanha do conhecimento requer que você olhe para ela, e saiba que requisitos você terá que cumprir para atingir o topo. Sem isto, é pura especulação

Contratos… Transparência

Fico feliz de ter sido celebrado o contrato entre o Hospital Margarida e a Prefeitura. O que gostaria de comentar é:

a) A mesma transparência que a prefeitura quer do Hospital Margarida, gostaria de ver na gestão da saúde em Monlevade. Como cidadão, gostaria de ver disponibilizado todos os gastos dispendidos nos diversos postos de saúde e como é a gestão e controle destas despesas. A prefeitura quer cobrar transparência, mas a prefeitura também deve dar o exemplo!

b) Serviços de alimentação para o PA? Algo de estranho nisto! Primeiro, porque é extremamente errado esperar que alguem tenha um atendimento que dure mais de 12 horas no PA. Se durar mais de 12 horas, já caracteriza internação hospitalar, o que, no meu ponto de vista, foge da característica do “Pronto Atendimento”. Se a prefeitura está mantendo pacientes em regime de internação lá, já tem coisa errada. E aí, não caberia a estrutura de “puxadinho” continuar.

c) Está correto, até em nome da transparência, cobrar como estes dados são gastos. Mas a prefeitura precisa ainda a aprender a lidar com números na área de saúde. Falta muito ainda para isto ser atendido.

A montanha está sendo escalada aos poucos. Passos importantes já foram passados. Agora é melhorar a transparência.

O Emerson Duarte falou quase tudo o que penso.

O Emerson Duarte, nesta postagem de seu blog, falou quase tudo o que penso.

Só cobro dele maior transparência e cuidado com os dados. Dados são a principal ferramenta do gestor. Pesquisas de opinião são tão fracas quanto medição do IBOPE.

Sanear as finanças do HM são importantes, mas os resultados por parte do HM tem que ser mensurados e medidos. A prefeitura “economiza” para o Margarida 260 mil, e o que o Margarida faz com esta economia não se é claro ou transparente.

Agora saiu a nova lei sobre as entidades filantrópicas, que obriga a uma série de indicadores serem transformados em indicadores públicos. Prevê com isto uma maior transparência na gestão destas empresas.

Eu cobro da prefeitura a mesma transparência. Quero dados. Os valores do DATASUS já os conheço de cor, e posso afirmar, não são condizentes com a realidade. É preciso melhorar e muito o abastecimento dos dados do SUS. E isto tem que vir através de… Sistemas de gestão adequados à realidade do município.

O desafio de subir a montanha é grande, mas não pode ser ignorado, nem deixado para trás.

O Rol de Procedimentos da ANS devia ser o Rol de Procedimentos do SUS

Qual médico oncologista ou de áreas ligadas ao diagnóstico que não gostariam de ter à sua disposição um PET-SCAN para detectar diversos tipos de câncer nos seus estágios iniciais? As operadoras de saúde serão obrigadas a oferecer isto a partir de julho de 2010. O SUS, não.

É interessante “onerar” os planos de saúde ampliando a cobertura dos procedimentos, aumentando ainda mais a segregação entre os que possuem planos de saúde e os que não o possuem. Isto não é garantir o acesso livre e irrestrito à saúde, como prevê a constituição.

Não estou defendendo meu segmento de mercado, não quero pleitear minha causa. Mas acredito que o acesso a este tipo de diagnóstico e recurso tecnológico não é a realidade em todas as áreas cobertas pelos planos de saúde. Por exemplo, no Acre não existem equipamentos de PET-SCAN. Não que tenha sido relatado ainda.

O curioso e que sempre falo, irregular, é que a ANS parece que se aproveita da chamada “inflação” médica (exames cada vez mais precisos, porém mais caros) para poder acabar de vez com as pequenas operadoras de plano de saúde. As grandes tem seu poderio econômico, enquanto as pequenas ficam a ver navios longíncuos e isolados.

A montanha do governo deveria ser baseado na equidade. Nada mais.

O problema dos PS não é apenas aqui

Veja esta notícia e reflita:

Hospitais têm que informar limitação de atendimento
 
por Saúde Business Web 
12/01/2010
 
A constatação de problemas em unidades municipais, estaduais e particulares conveniadas ao SUS foi o motivo da nova obrigatoriedade
 
O Conselho Regional de Medicina do Recife (Cremepe) solicitou que todos os hospitais do SUS passem a informar qualquer eventual limitação de atendimento em plantões. O comunicado deve ser feito diariamente pela Central de Regulação da Secretaria Estadual de Saúde e Secretaria de Saúde do estado.Alguns dos motivos que levaram o Cremepe a tomar esta decisão são o fechamento do plantão por superlotação ou falta de médico, à seleção de pacientes por tipo de doença e não recebimento de doente à noite, rejeição de idosos e obesos. A constatação dos problemas foi dada por meio de denúncias e investigação nas unidades municipais, estaduais e particulares conveniadas ao sistema único.   

Os problemas em atendimento de urgência não são localizados apenas em Monlevade. Vale a pena ressaltar que legislar em torno do umbigo não resolve o problema.

Repasses. A novela continua

Fico sabendo que o convênio dos repasses entre a prefeitura e o Hospital Margarida foi suspenso. O repasse fica focado em pagar os plantonistas para o Pronto socorro do Hospital.

Motivos políticos? Se eles existem, não me compete analisar. O que me chama a atenção é a extrema dependência do Hospital neste repasse para garantir o atendimento à população. Um pronto socorro geralmente deveria se auto-sustentar. Repasses indicam que alguma coisa está falhando, e isto, infelizmente, os blogueiros de Monlevade estão esquecendo de analisar.

Existem N casos pelo país afora que existe este repasse. Ano passado, conheci um presidente de câmara que ficava indo a Brasilia pedir para o governo a melhoria dos repasses para o PS da sua cidade, o único numa área de 10 municípios no Norte de Minas. Ele era presidente também de uma operadora de plano de saúde (modalidade de auto-gestão) e ficava indignado com a falta de atenção do governo para com as pequenas cidades, e seus necessários atendimentos de urgência.

Eu questionei para ele se a instituição apresentava seus balanços financeiros atualizados e auditáveis, para provar a necessidade dos repasses. Ele me informou que “80% dos atendimentos na região são do SUS. Infelizmente o que vem dos convênios só cobre a folha de pagamento”. 

Não vou entrar no mérito da remuneração dos planos de saúde, porque cada um adota suas políticas baseados nas tabelas de honorários. Não me compete também apontar novamente que se perde dinheiro com coisas do tipo “material e medicamento”, porque já bloquei sobre isto.

A cidade não tem a “obrigação” de dar dinheiro para pagar profissionais que não atenderão apenas ao SUS, e sim aos convênios. E o Hospital Margarida também não tem a obrigação de manter o serviço de urgência, se já existe um previamente denominado de “PA”.

O que sei é que o PA faz o serviço de ambulatório. Ou seja, muitas vezes, são atendidos casos que podem ser resolvidos nos postos de saúde. Assim como o PS do HM também faz muito serviço de ambulatório, que não justificaria o nome “PS”.  A distância entre a remuneração e o equilíbrio financeiro dependem de uma gestão que passa até pela triagem.

Seguramente esta novela não vai terminar aqui, vai render muitos capítulos, desgaste da população e da imagem das instituições. O que eu fico irritado é que sempre se fala em “Fulano” e “Beltrano”. Fulano e Beltrano estão de passagem. Não são “a” instituição. Estão no seu comando, mas não são donos dela.

A montanha tem seu nome, mas ela pertence ao planeta. A transposição dela tem seus percalços, e os vitoriosos tem seus nomes reconhecidos. Apenas o reconhecimento, mas ela jamais deixa de pertencer ao planeta.