Eu sempre tenho batido na tecla de sustentabilidade de saúde. Sustentabilidade significa no mínimo empatar as receitas e despesas, e ter uma gestão baseada em um resultado que retorne algo positivo para a sociedade.
Existe uma premissa básica nos atendimentos de emergência. Eles não são focados para processos preventivos. São todos emergenciais, e não existe outro pensamento sistêmico que mude a cabeça dos gestores. Eles devem ser imediatistas. A inter-relação deles com outras atividades de saúde são quase inexistentes. Você, que me lê, já esteve no PA, e depois recebeu a visita de um agente comunitário de saúde para saber se você está tomando os medicamentos, ou acompanhar a sua evolução no pós-alta deste serviço? Se existir esta situação, estaremos realmente exercendo uma medicina de primeiro mundo, e evitando novos custos com novos atendimentos, que tendem a ser caros. Mas não é isto que vemos na nossa prática. Este pensamento teoricamente estaria na integração das redes de saúde.
Vamos pensar que você tem plantonistas que recebem o pagamento de uma outra fonte Y, e recebem novamente este atendimento, por outra fonte X. Onde está a boa gestão financeira? Teoricamente enfraquecemos um elo da corrente, tirando uma parte dos recursos para cobrir outro. E é possível esta conduta? Se meu interlocutor pensar, verá que existe este tipo de caso, em N situações de nossa saúde.
A gestão de um pronto atendimento não é fácil. O que o SUS paga é muito pouco. E o que se demanda em termos de custo, é alto. Medicamentos, materiais, profissionais. E você acha que estes profissionais são voluntários ou são todos franciscanos, em sua relação com os elos que necessitam deste atendimento? Até hoje não vi um frade atendendo em um PS. A não ser nos casos de óbito, na unção dos enfermos. E olhe lá.
Você ainda tem que lidar com riscos de infecção, o descarte de materiais infectados, sangue, limpeza. E você ainda tem que atender a inúmeras exigências de inúmeras esferas que vão pedir para você atender fulano e cicrano.
E você vai ter que entender a fragilidade emocional de quem está doente. Existe este fator também. E ele é tão determinante, que não existe sistema de triagem que resolva.
Como você resolve este problema? Com boa gestão, um sistema de estoques bem azeitado, compras eficientes e uma equipe treinada e capacitada para fazer o máximo, mesmo com o mínimo.
Existe um livro que fala de medicina de guerra. Descreve procedimentos médicos realizados com o mínimo de recursos. E em situações caóticas. E com recursos limitados. O que faz a diferença não é apenas o recurso, mas a criatividade em usar. O leitor mais afoito deduzirá que estou querendo que nossos PS sejam tratados como campos de batalha. Claro que não são. Mas está faltando criatividade e dados para que a conta feche. O que se pode fazer mais com menos? Como otimizar recursos? Qualquer aluno de engenharia de produção poderia estudar este caso e apresentar saídas. Mas ele jamais conseguirá se não forem apresentados dados.
Medir e quantificar. Apresentar dados. Discutir com a comunidade. Conselheiros são bons, mas não entendem, por exemplo, que uma caixa de luva de procedimentos tem que ser funcional, tem que durar 50 atendimentos (100 unidades). E que se pode cortar despesas pequenas, se elas forem geridas corretamente, sem comprometer a segurança biológica e o atendimento.
A discussão não deveria nunca ser quem é melhor, se a árvore ou o tucano. Deveria ser: Quem, com criatividade, boa gestão e dados, consegue reflorestar e permitir a fauna viver. Sem ter que ficar disputado purrinha para quem tem X ou Y.
E vamos subindo a montanha.