Arquivo para 7 de julho de 2010

Tempo de espera

Em outro post, abordei sobre o problema da fila. Mas esqueci que em Saúde pública as filas também são tão caóticas e desrespeitosas quanto nos bancos. E trazem mazelas piores, pois quem precisa de atendimento teoricamente não deveria entrar numa fila para marcar uma consulta.

A um tempo atrás, foi iniciado um processo de tentativa de marcação via telefone em várias cidades. Se o projeto tiver sobrevivido, foi a custa de criar outras alternativas além do telefone. Em algumas cidades o projeto foi feito engessado (só se aceitava via telefone, como uma forma de “domesticar” o atendimento. Fracassou totalmente.

Ocorre que todo governo, todo gestor, não sabe medir corretamente os tempos de espera e agir no que causa o tempo de espera. Um dos fatores é a falta de profissionais para diminuir este tempo, mas sequer se dá importância real a ele. Não se cria a idéia de que “se demorou mais de 15 dias para atender, é sinal que existe demanda reprimida”, e buscar concursos das especialidades deficitárias. Já vi neurocirurgiões atenderem em UBS´s não por vontade, mas porque a demanda de um clínico era maior que a de neurocirurgiões. E lugares que necessitavam de neurocirurgiões, mas tinham clínicos em demasia.

Uma forma de resolver isto, que é até prevista, são os consórcios municipais terem mecanismos de regulação de especialidades. Municípios maiores disponibilizariam sua rede para atender a demanda de outros municípios menores, desde que fosse equacionado o custo de maneira justa. Mas isto é uma coisa que é linda no papel, mas na prática, até o momento, raras experiências tem sido reportadas.

E o tempo nas filas cada vez é maior, mas vamos subindo a montanha.

Consistência, nada mais que consistência

Estou tentando, a muito tempo, fazer panoramas entre os indicadores de saúde de municípios de mesmo porte de João Monlevade, em termos de receita do SUS.

Existem cidades que possuem 2 e 3 hospitais, sendo em sua maioria, filantrópicos. E eu simplesmente fico embasbacado como eles recebem muito mais por isto. Em SP, por exemplo, existem cidades do mesmo porte e tamanho de JM com apenas 1 hospital que tem indicadores de saúde de Primeiro Mundo. 100% de cobertura de PSF, 100% de rede de esgoto, Cobertura vacinal na faixa de 95%.

No Sul, os indicadores são semelhantes. Não existe saneamento em 100% das habitações (algo na faixa de 75 a 80% (áreas rurais), mas tem indicadores de saúde excelentes, até trabalhos de parto humanizado, promoção a saúde desde a infância, e IDH como nossa cidade. E arrecadação inferior à nossa.

O que leva uma cidade de 30 mil habitantes, arrecadando menos que nossa cidade, mas com uma saúde e atenção básica eficientes? Eu diria que, além da cultura do trabalho, estas cidades descobriram que estão com sua população cada vez mais estabilizada (crescimento populacional na faixa de 1, 2% ao ano), e, por isto mesmo, as pessoas tem que possuir melhor qualidade de vida. Se você observar a distribuição de renda no interior, em áreas rurais, existem os bolsões de pobreza, como qualquer centro urbano, mas o índice de adesão aos programas do tipo bolsa-família não passa de 2,3% da população. Ou seja, a “pobreza” não é necessariamente o maior fator de falta de assistência. E tratan-se de municípios com extença área territorial.

O que transforma um município do SUL, de SP, ou de qualquer estado melhor que o nosso não é a distância e o lugar, e sim a preocupação com que seus administradores públicos dão aos serviços básicos, a chamada “atenção básica”. Cidades de portes diferentes, com indicadores de saúde melhores que o nosso servem de “benchmarking”, de referência para comparação, pois eles tem algo que devemos espelhar, que é o resultado para a população. Se eles dão resultados positivos, basta pesquisar, perguntar “o que eles fazem diferente de nós, com menos dinheiro que temos, mas com mais resultado”?

Eu sempre falo que as prefeituras muitas vezes ficam imersas em seus umbigos, olhando seus problemas, e esquecem que existem boas iniciativas, espalhadas pelo país, que podem melhorar as práticas adotadas na gestão. Se esquecerem um pouco o “politiquismo”, esta prática vigente nestes dias, poderão tirar lições valiosas sobre gestão de saúde, e trazerem estes projetos para nossa realidade. Basta querer e fazer.